Dos militares até os hackers guerrilheiros – uma perspectiva social sobre o Hacking

Os computadores surgiram para atender as necessidades militares e administrativas dos Estados. Inicialmente, eles eram máquinas de calcular gigantescas, do tamanho de salas, que possibilitavam a contagem nos censos e a precisão das bombas atiradas pela artilharia nas guerras. Em 1943, o presidente da IBM chegou a prever que haveria mercado para apenas cinco computadores em todo o planeta, e até os anos setenta a imagem de computadores era a de rivais da inteligência humana na ficção científica, ideia que só reforçava a imagem desses aparelhos como ferramentas de dominação e controle. Por muito tempo, empresas gigantescas e elitistas como a IBM ignoraram os computadores pessoais como uma possível realidade, o que abriu caminho para que jovens estudantes do MIT se reunissem em maratonas, muitas vezes noturnas, para explorar as possibilidades que guardavam aquelas máquinas. Foi assim que surgiram os primeiros jogos, robôs e microcomputadores. São estes que se tornaram os hackers romantizados como gênios anti-sociais e reclusos. Hoje existem imagens bem diferentes dos hackers, que podem ser considerados terroristas ou até mesmo defensores da liberdade, tal como Chelsea. Como isso se deu? Das fileiras do movimento anti-bélico da costa oeste dos EUA surgiram os hackers guerrilheiros. Nas mãos deles o computador seria convertido em um instrumento de política democrática. Convencidos de que existia em suas máquinas o potencial democrático para subverter o sistema político e econômico, estes hackers acreditavam que os computadores haviam sido capturados pelos militares apenas para oprimir e controlar as pessoas, e não libertá-las. Percebendo como a informação era fortemente controlada através de hierarquias que produziam as verdades do status quo, como as televisões e governos, o objetivo destes hackers era construir uma rede horizontal de conhecimento, uma democracia direta da informação que não só ultrapassasse estas barreiras pré-definidas, mas que as fizesse ruir de algum modo.
O computador se apresentava como o antídoto contra os segredos governamentais, as mentiras políticas e o silenciamento autoritário. Logo essas máquinas ganhariam uma aura de vulgaridade e radicalismo, representando a juventude, o rompimento com o estabelecimento social e a busca por uma liberdade e igualdade mais efetivas.

Os hackers eram os jovens que haviam abandonado a universidade em busca de autonomia e de uma descoberta das suas capacidades. O primeiro computador, Altair, era uma caixa mágica que chegava pelo correio. Produzido não por corporações, mas por um casal excêntrico em sua garagem, sua propaganda dividia o lugar com outros produtos alternativos como kits de horticultura em catálogos de produtos. Foram destas raízes que nasceram os esforços para atacar os arsenais nucleares como protesto em 1989 e os protestos por liberdade de expressão que culminaram em 2001, com a declaração de um código de conduta instigando a desobediência civil online pelo grupo hacker underground “Cult of the Dead Cow”, que contava com um comunitarismo popular contra o controle do Estado e buscava a liberdade da informação como um direito humano. De coletivos anônimos que se formam ao redor de assuntos de interesse público, até ex-funcionários de agências governamentais, o hacktivismo é uma força considerável que está lutando contra o controle institucional da informação e das redes.

Deste modo, pode-se localizar Chelsea como integrante da síntese de todo este processo que é o hacktivismo. Num primeiro momento, integrante das camadas profundas do militarismo estatal imperialista. No momento seguinte, o estardalhaço das informações lançadas aos mais variados públicos que buscaram desenvolvê-las e utilizá-las consoantes com os princípios éticos que validam. Por último, um firme posicionamento de oposição e resistência à opressão e manutenção das ferramentas de controle e poder tecnológico.

 

Fonte: Partido Pirarta