Copyleft: Significado, história e tipos de licença

Significado

Copyleft significa o direito de permissão de cópia de uma obra por outros usuários, dando a liberdade de copiar, modificar e redistribuir, exigindo que esse direito seja mantido em todas as versões modificadas.

O termo “copyleft” é formado pelas palavras inglesas “copy”, que significa “cópia” e “left”, que significa “esquerdo”. Literalmente, seria “esquerdo de cópia”, mas geralmente o termo é traduzido por “permitida a cópia”.

Copyleft surge do trocadilho com “copyright”, o direito de copiar, neste caso, atribuição de direitos ao proprietário impedindo reproduções não autorizadas da obra. Copyleft transmite precisamente a ideia de que haverá sempre garantia de liberdade para os usuários reproduzirem a obra.

Muito usado na informática, o copyleft é adotado por programadores que desenvolvem um software novo e pretendem que seja melhorado pela comunidade de usuários.

O software é registrado usando uma licença de software livre, atribuindo o direito a qualquer pessoa de copiar, usar, modificar e redistribuir o código-fonte do programa. Desta forma, o código pode ser livremente acessado e modificado pelos usuários. Geralmente consta no código os termos de licença e o nome do autor do software.

As versões modificadas de um trabalho estarão sempre vinculadas ao acordo de licenciamento.

História

Apesar de hoje em dia o conceito se aplicar a uma ampla variedade de campos, como a produção científica, literária, audiovisual e artística em geral, sua origem se encontra na década de setenta, no incipiente desenvolvimento de um software para o ainda embrionário setor de Informática.

No laboratório de inteligência artificial do MIT, desenvolviam-se programas, segundo Richard Stallman, em um ambiente de colaboração e compartilhamento. Em certo momento, o ambiente começou a se desagregar, já que algumas pessoas começavam a criar empresas. Conforme Stallman, “eles teriam investimento externo, sem escrúpulos, e fariam tudo o possível para ganhar”. Uma empresa, a Symbolics, começou a fechar o código dos programas feitos para o interpretador livre de Lisp. Stallman, na via contrária, começou a implementar todas as novas características dos programas, mas em versões livres.

Como Stallman achou pouco viável, a curto prazo, eliminar as leis de copyright, assim como as injustiças que considerava provocadas por seu perpetuamento, decidiu trabalhar dentro do marco legal existente. Assim, começou a desenvolver um sistema operacional livre, o GNU. Finalmente, criou sua própria licença de direitos autorais, a Licença Pública Geral do GNU (GPL). Segundo o projeto GNU:

A forma mais simples de fazer com que um programa seja livre é colocá-lo em domínio público, sem direitos reservados. Isso permite compartilhar o programa e suas melhorias com as pessoas, se assim o desejarem. Mas também permite que pessoas não-cooperativas convertam o programa em software privado. Elas podem fazer mudanças, muitas ou poucas, e distribuir o resultado como um produto proprietário (isto é, que não pode ser modificado a não ser por quem o distribuiu). As pessoas que recebem o programa com essas modificações não têm a liberdade que o autor original lhes deu, retirada pelo intermediário. No projeto GNU, nosso objetivo é dar a todo usuário a liberdade de redistribuir e modificar o software GNU. Se os intermediários pudessem retirar essa liberdade, nós poderíamos ter muitos usuários, mas esses usuários não teriam a mesma liberdade. Assim, em vez de colocar o software GNU no domínio público, nós os protegemos com copyleft. Copyleft implica que qualquer pessoa que redistribua o software, com ou sem modificações, deve passar adiante a liberdade de copiar e modificá-lo também. Copyleft garante que cada usuário tenha liberdade.

Pela primeira vez se impedia que o titular dos direitos de autor pudesse transferir de forma permanente e a obras derivadas surgidas, o máximo número de direitos possíveis a aqueles que recebessem uma cópia do programa. Isto é, impedir juridicamente que o material oferecido nestes termos possa num futuro ser apropriado, ou parte dele, a direitos autorais ou propriedade intelectual. Ainda que fosse a primeira licença copyleft, será posteriormente, com novas licenças inspiradas nesta e com a popularização do software livre que este termo começaria a se tornar frequente.

Com o passar dos anos, o copyleft deixou de ser aplicado unicamente em softwares. Publicações científicas, obras literárias, audiovisuais e artísticas, por exemplo, também foram licenciadas de modo semelhante. O copyleft inicial deu origem a várias outras licenças, que preservavam a liberdade em maior ou menor grau.

Tipos de licenças

GNU / GPL

Criada em meados da década de 1980, tem sua origem no mundo do software livre e é, por sua vez, a principal responsável de todo o movimento pela cultura livre e do copyleft. Está baseada nas quatro liberdades propostas por Stallman e a FSF (Free Software Foundation): 1) de uso; 2) de estudo e modificação; 3) de cópia e 4) de melhora e distribuição dos conteúdos, o caráter livre do produzido continua assim nas obras derivadas cujos conteúdos mantêm a mesma licença.

Apesar de que alguém dirá que a Internacional Situacionista se adiantou a tudo isso quando em 1958 dizia:
Todos os textos publicados na Internacional Situacionista podem ser livremente reproduzidos, traduzidos e editados, mesmo sem citar a fonte original.
No entanto, ao tratar-se de um projeto proveniente do mundo da programação e do software apresenta inconvenientes na hora de adequar-se a conteúdos “artísticos”.

Certamente a Licença de Arte Livre foi a mais fiel no intento de transladar a GNU ao mundo da arte. De fato, a FSF a recomenda para trabalhos artísticos e a coloca à frente inclusive da Creative Commons.

Licença de Arte Livre. Free Art License

Provavelmente uma das primeiras iniciativas para transladar algumas das ideias do movimento do software livre ao campo da arte. Denomina-se a si mesma como uma “licença de atitude” e veio à luz no evento Copyleft Attitude de París no ano 2000. Seu principal objetivo é fomentar o livre acesso a cultura frente aos modelos restritivos vigentes. Mas ao mesmo tempo promove o uso criativo das obras artísticas por parte do público. O artista que utiliza esta licença garante que o usuário possa:

  • Fazer cópias para o uso pessoal ou de terceiros.
  • Distribuir livremente o trabalho por qualquer meio, de maneira gratuita ou não.
  • Modificar livremente o trabalho.

A licença estabelece algumas limitações: Deve estar adjunta à obra ou indicar onde se pode localizar, além de especificar o nome do autor original e o lugar de acesso ao original.

Open Content License

[http://www.opencontent.org/opl.shtml]

Oficialmente encerrada em 2004 e substituída, desde então, por CC. Seu autor, David Wiley, da Universidade de Utah, pretendia entender os termos do modelo FLOSS a conteúdos não baseados em software e difundir a ideia dos conteúdos abertos com o fim de serem compartilhados. De alguma maneira, seu enfoque, se dirigia ao mundo educativo. Seguindo o modelo da GNU / GPL, esta licença garantia:

  • O direito de fazer cópias.
  • O direito de redistribuir o conteúdo.
  • O direito de modificar o conteúdo.

Design Science License

Esta licença garante ao usuário liberdade para copiar, distribuir e fazer cópias do trabalho sempre que o texto da licença seja distribuído ao lado da obra. É requisito indispensável que tanto o objeto como a “fonte” sejam distribuídos nos mesmos termos. A licença não admite outras restrições além daquelas explicitadas na licença.

Aire Incondicional (Ar incondicional)

[http://www.platoniq.net/aireincondicional_licencia.html]
Foi realizada em 2004 pelo advogado Abel Garriga em colaboração com o coletivo Platoniq (http://www.platoniq.net) no marco do projeto “Ar incondicional, a emergência de estratégias comunitárias e migratórias na Europa do Sul”, foi levado a cabo no Centro de Arte Shedhalle de Zurich mas também circulou em Genebra, Basilea e Lugano.

Se trata de uma licença única, inspirada nas licenças GNU da Free Software Foundation e as licenças de Creative Commons. Permite a reprodução, distribuição, comunicação pública e transformação livre sem intenção de lucro e se reconhece a autoria sempre de forma expressa. Como novidade incluem um par de conceitos que a diferencia de outras licenças equivalentes. Em primeiro lugar adotam a definição de “intenção de lucro” quando diz: “Se entenderá que não ha benefício comercial se o acesso ao ato de comunicação pública da obra da lugar ao pagamento de uma quantidade que não exceda o necessário para cobrir os gastos de funcionamento desse ato”. Faz menção expressa à proibição de utilizar a imagem com fins diretamente ou indiretamente publicitários e prestam especial atenção ao intercambio através de redes p2p. “O intercambio da obra mediante sistemas que permitam compartilhá-la com outras pessoas (file-sharing) não se considerará usada com intenção de lucro exceto se leva acertado o pagamento de alguma quantidade por algum conceito relacionado com a troca da obra.”

Coloriuris

Coloriuris é uma proposta de licenças, desenvolvida por iniciativa dos advogados Canut e Grávalos, “para definir a política de direitos de autor dos conteúdos a partir do modelo continental e com respeito ao Convênio de Berna e a normativa da UE” com efeitos legais em uma série de países de fala hispânica mais o Brasil e Portugal. Esta dirigido especificamente a conteúdos literários, musicais, audiovisuais e fotográficos que são distribuídos pela Internet prestando especial atenção às bitácoras ou weblogs, campo ao que dedica mais atenção. O nome Coloriuiris tem relação com as cores nas quais se organizam as diferentes licenças.

Oferece uma seria de áreas e uma gama de cores (de licenças) onde há cores básicas e cores especiais:
Área a. Informa acerca da política de cessão dos direitos de reprodução, distribuição e comunicação pública.
Área b. Informa acerca da política de cessão do direito de transformação.
Área c. O logo Coloriuris que informa de que o conteúdo (geralmente um site web/ bitácora[3]) se oferece sob um contrato Coloriuris.

Tanto na área A como na B, informam da política correspondente utilizando um código de cores que inclui o vermelho, amarelo, verde e azul. Descartando o azul, do qual falaremos mais adiante, a regra geral para interpretar a cor é que indica o quão restritiva é a política correspondente, desde vermelho (mais restritivo) até o verde (menos restritivo), com o amarelo, como ponto intermediário. Como novidade, a parte da inclusão das cores como um elemento diferencial entre as diferentes licenças, inclue um período de anos durante a qual a licença estaria vigente.
Desta maneira, se criam 8 combinações diferentes, que no entanto, não deixam de ter certo paralelismo com as que propõe Creative Commons; “Cessão em cadeia” igual a “Share Alike” ou “Compartilhar Igual”. Também, como no caso de CC dispõem de um formulário onde “confeccionar” e personalizar a licença a qual pode servir de registro de uma série de conteúdos licenciados com Colouris.

Artistic License

Seu nome pode dar lugar a confusão porém, na realidade, não se trata de uma licença para conteúdos “artísticos” mas que se destina fundamentalmente a pacotes de software livre ou linguagens de programação como Perl, concebido precisamente por Larry Wall, autor original da primeira versão da licença.

Licença Artística de blender

[http://www.lokigfx.com/blenderdoc/htmlII/x11993.html]
De alguma maneira se inspira na Licença Artística de Perl e está formatada por Blender para distribuir ficheiros de exemplo, imagens fixas e animações realizadas em software de 3D “Blender”. Permite a cópia, modificação e distribuição livre dos conteúdos sempre que esses acompanhem o texto da licença.
A licença utilizada para os conteúdos criados com o programa Blender é diferente da Licença do próprio software livre, licenciado com o GNU GPL.
Recentemente, a fundação Blender tem produzido o projeto “Elephants Dream”, um longa-metragem de animação integralmente desenvolvido com o software Blender e distribuído com a licença Creative Commons dentro do que se tem denominado como Orange Open Movie Project. O filme, assim como recursos de produção imagens, trilha sonora, etc., podem ser baixados da página (orange.blender.org) e utilizados livremente com a correspondente atribuição de autoria.

Against DRM 2.0

[http://www.freecreations.org/Against_DRM2.html]
Se trata de uma das licenças de mais recente aparição, orientada, como indica, a trabalhos intelectuais (works of mind) de caráter criativo. Sua característica mais especifica é sua oposição explicita às tecnologias DRM “orientadas a exercer restrições sobre os usuários de um sistema ou forçar os direitos digitais permitidos”. A versão em castelhano também esta disponível em sua página.

Libre Designs General Public LDGPL

OpenDesigns é uma iniciativa que tenta compartilhar desenhos abertos/ livres de qualquer tipo de objetivo. Sua licença foi criada em 2003 para facilitar:

  • A liberdade de usar o desenho para qualquer propósito
  • A liberdade para estudar como funciona o desenho e adaptá-lo às suas necessidades.
  • A liberdade de redistribuir as cópias do desenho com o que possa ajudar ao seu vizinho.
  • A liberdade de melhorar o desenho e tornar públicas as melhorias aos demais, de modo que toda a comunidade se beneficie.

O que a converte em uma espécie de GNU GPL para objetos. Como novidade, mencionam expressamente o perigo constante das patentes e a incompatibilidade da licença com patentes que não garantam as liberdades da licença.

Pra quem deseja se interar mais sobre o assunto, segue o link para o manual de uso do copyleft.

Notas

Manual Copy Left
Wikipedia
Siginificado

Everything is a Remix – É tudo uma Copia

 

O documentário Everything is a Remix é dividido em quatro partes e conta como todas as coisas que admiramos hoje em dia na chamada cultura pop (música, cinema, tecnologia) são nada mais que cópias de outras coisas que deixamos de admirar (ou não admiramos por não ter a mesma visibilidade). O mesmo ocorre com o mito das invenções e seus considerados inventores geniais. Não que todos os grandes nomes da ciência e tecnologia não são, de uma forma ou de outra, grandes mentes fazendo grandes coisas, mas considerar uma ideia inventiva, algo único, pontual e genuíno, é equivocar-se demais.

Talvez um dos documentários mais geniais que já vi. Kirby Ferguson procura desmistificar a figura do artista supremo, aquele que acredita-se ser isento de qualquer inspiração ou mesmo “cópia” prévia, que modela sua arte a partir do nada e de lugar nenhum; apenas surge em sua mente brilhante a ideia. Apontando grandes nomes do mercado musical (Led Zeppelin), cinematográfico (George Lucas e Quentin Tarantino) e tecnológico (Steve Jobs), Kirby dá seu ultimato: “Criatividade não é magia”. Uma alerta para que nos livremos do fardo de que toda ideia inventiva é algo único e genuíno e que descartemos qualquer pioneirismo. E quem disse que um “remix” ou “cópia” é algo indigno e repulsivo? Real gênio é o que consegue copiar, transformar e combinar elementos diversos para a partir daí ressignificar a experiência. (Re)invenção é a chave!

“Eu avistei mais longe do que muitos, porque fiquei de pé em ombros de gigantes”. (frase de Albert Einstein, inclusive também uma “cópia”)

COPIAR — TRANSFORMAR — COMBINAR = CRIAR ALGO NOVO

Determinação é, sim, a chave para grandes feitos, assim como conhecimento e experiência. O resto é pura reinvenção.
Uma vez um amigo meu foi em uma palestra dada pelo Wynton Marsalis, um baita (baita mesmo) trompetista que toca jazz bem tradiça. Quando abriram para perguntas, um cara no meio da plateia questionou como ele poderia se transformar, um dia, em um jazzista foda. O Wynton respondeu que, para tocar jazz pra cacete, não tinha segredo: bastava pegar todas as gravações de jazz já feitas e tirar todos os standards em suas diferentes variações de olhar de cada jazzista que a gravou e, ao final, você estaria tocando jazz com toda a facilidade do mundo.Fácil não seria, mas era esse o segredo. Se parar pra pensar, basta você ter repertório e, de tanto copiar, você acaba transformando e combinando tudo o que você absorveu em uma coisa genuinamente foda. Isso serve pra tudo.

Somos uma complexa composição de influências e experiências externas, ou seja não somos fruto “do nada”. Com toda certeza alguém aqui na discussão deve ter se lembrado de Lavoisier “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”, a verdade é que devemos estender a teoria para a sociedade no geral.

Creio que estejamos todos interligados as gerações do passado do presente e do futuro, as gerações do passado serviram de apoio para nós hoje, assim como nós seremos apoio para as gerações futuras, é assim que deve ser, copiar, transforma e combinar, acredito que seja a base para nossa evolução, nós dependemos do próximo.

PARTE UM

PARTE DOIS

PARTE TRÊS

PARTE QUATRO

https://vimeo.com/38203026